Tom Black, o piano, morava lá, há anos… Uns 15… Naquela sala de apartamento da família classe média do Condomínio Plus.
Não estava bem. Há dois anos não conseguia falar nem se expressar direito, pois irrompia em gritos e choros descontrolados.
Durante um período ficou mais calmo, conseguia soar normalmente, mas sem saber por que, assustava a todos com seus ímpetos estridentes.
Após esses episódios, quebrava a confiança da menina que, com medo, ou com receio de aborrecê-lo, parava de tentar tocá-lo outra vez. A menina se assustava, sim, é verdade, mas também não queria machucá-lo ainda mais. Seus gritos pareciam a expressão da agonia de alguém a sofrer intensamente.
E ali ficara ele, 1, 2, 3, 10, mais de 20 meses aborrecido no canto da sala, perdendo a sua função de instrumento de música. Alguma função tinha, mas não aquela para qual fora concebido. Virara depósito ou suporte para outros objetos.
Algumas peças, como ele, estavam a perder sua função original como os CDs que estáticos numa caixa rosa, nem eram mais notados. Depois que o YouTube chegou na TV logo acima deles, ninguém os enxergava mais. Ficavam visíveis de frente para o sofá, mas invisíveis às almas das pessoas da casa. E a música a encher o ambiente vindo do aparelho televisivo com ar e posição de superioridade.
Tom Black até sentia uma espécie de conforto mórbido ao perceber que os CDs estavam na mesma condição que ele - parados no tempo e no espaço… Ele, por doença e os redondos por obsolescência. Palavra longa, mas pensada sem esforço na mente culta de Tom, o piano agora encostado.
Além de papéis soltos com alguns desenhos de mulheres e heroínas que o caçula desenhava, uma raquete elétrica mata-mosquito do Paraguai, alguns livros temporários, duas coisas não saíam de cima dele. Eram leves, mas com o tempo foram ficando pesadas.
O ukulelê sem nome e a caixinha azul com remédios dentro. Do ululele ele não tinha inveja, já que a menina pegava para tocar muito de vez em quando e por pouco tempo. Dava para perceber que nos velhos tempos, quando ela sentava para tocar suas teclas pretas e brancas, suas mãos demoravam muito mais ali do que naquelas cordas finas e sem graça do vizinho.
Sobre a caixinha azul, Black tinha curiosidade sobre os remédios… Será que ali não teria um antídoto para a sua dor? Um calmante para seus nervos? Mas de qualquer forma, dependia da boa vontade da menina ou de alguém da casa para ajudar-lhe. Tinhas pés parados e não tinha mãos.
Às vezes, ouvia as conversas dos habitantes à sua volta. Conseguira entender que um especialista viria ajeitá-lo assim que virasse prioridade. A esperança reacendeu, mas não sabia ao certo do que precisavam para que ele se tornasse prioridade.
Os olhares marejados da menina ao olhar pra ele, faziam-no sentir-se um derrotado, incapaz de alegrar-lhe como outrora. Será que algum dia seriam um só novamente? Quando viveriam aqueles momentos mágicos que só os dois conheciam? Será que alguém mais sentia falta daquele som que só os dois sabiam fazer?
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