terça-feira, 9 de setembro de 2025

Tênis velho


Um dia de agosto de 2025, pela manhã, procurei meu tênis para calçar, mas não o encontrei. Meu filho já estava arrumado, aguardando por mim para  levá-lo à escola. De repente, olhei para os pés dele e achei meu tênis! Ele me disse que queria ficar diferente nesse dia e por isso o havia calçado. Fiquei um pouco confusa porque não sabia como iria fazer meus exercícios (sim, eu só tinha um) e ele me disse: calce o meu, mãe! 


Nesse momento, percebi que o pé dele havia crescido e sim, eu poderia calçar seu tênis. Logo nas primeiras passadas, senti um desconforto considerável, pois a palmilha estava bem gasta. Eu perguntei se estava tudo bem com o meu tênis  e ele me respondeu que sim. Perguntei se achava algo diferente em relação ao tênis dele e ele disse que não. 


Embora eu tenha sentido muita diferença, ele não sentira. Com certeza, o pé dele é diferente do meu ou apenas o nível de percepção do desconforto. Além disso, cada um pode estar tão acostumado com as suas dores, seu próprio jeito, as suas marcas e os seus calos que às vezes nem percebe que os tem. Contudo, os efeitos desses desconfortos podem gerar consequências: um tênis inadequado, por exemplo, pode gerar problemas e lesões no pé, nos joelhos, na coluna, principalmente em quem pratica esporte. 


Compreender o outro talvez seja mais eficiente quando calçamos o seu tênis. Como mãe, me senti na obrigação de comprar um tênis novo para meu filho. Talvez demorasse mais semanas para chegar a esta conclusão se não os tivesse calçado. 


Lembro-me de que nesta idade, não avisei à minha mãe que estava com um dente doendo e fui suportando até não aguentar mais, pois a ouvira comentando com meu pai que as coisas estavam apertadas naquele mês. O resultado foi uma cárie muito maior naquela época e consequências até hoje em um dente permanente que passou por endodontia, vários  blocos e um implante. 


Um juvenil da vizinhança estava muito agressivo e batendo nos outros (incluindo meu filho) e, como eu o conhecia desde pequeno e sabia que não era assim, resolvi perguntar a respeito. Na conversa, percebi que ele tinha perdido o pai e embora já tivesse um tempo, não sabia como lidar com a situação. E o pior, não estava contando nada à mãe porque “ela já estava cheia de problemas”.  


Embora eu também tenha meus próprios problemas e meu tênis não esteja muito novo, o dele estava pior e nem estava percebendo. Como mãe, além de perceber quais mudanças preciso fazer em busca de meu próprio conforto, também preciso compreender  meu filho adolescente em suas tentativas pessoais para tanto. Todavia, é possível estimular uma percepção mais aguçada, com melhor discernimento para uma busca de sentido e conforto em lugares, situações, relacionamentos e “tênis” mais adequados. 


Voltando a história do juvenil… Dei essa oportunidade à mãe dele: de saber o que estava acontecendo. Na época, pedi a uma vizinha que tinha mais intimidade para conversar com ela. Assim, ela pôde ajudar o filho e, com o tempo, acabamos ficando todos amigos. Enfim, há muitos tênis que podem ser trocados por aí! Como está o seu?


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